O documentário “Cartas Para”, dirigido por Vânia Lima com produção da Têm Dendê Produções, ganha uma agenda especial em julho. O filme chega à Festa Literária Internacional de Paraty, com uma exibição neste sábado (25), às 20h30, no Cinema da Praça de Paraty, depois de percorrer importantes festivais no Brasil, como o Festival do Rio, Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador. O evento contará com a participação da diretora Vânia Lima, da escritora Elisa Lucinda — personagem do filme — e da representante da distribuidora, Lança Filmes, Daniela Gouveia Menegotto. No dia seguinte (26), Elisa Lucinda e Vânia Lima participam de um bate-papo na Casa Editora Malê, a partir das 10h.
No documentário, Paulina Chiziane, em Moçambique, Elisa Lucinda, no Brasil, e Raquel Lima, em Portugal, têm seus cotidianos revelados e alterados na troca de nove cartas que atravessam o Atlântico e sua história colonial. Desejos, angústias e lutas para seguirem escritoras na diáspora são apresentados em uma narrativa poética de sons, espiritualidades e corpos, que a existência desafia o racismo, machismo e xenofobia, mirando no futuro da Língua Portuguesa e seus falantes.
As artistas se debruçam sobre os processos que envolvem seus trabalhos, o papel da escrita em suas vidas e a descoberta de suas vozes. Elisa Lucinda, por exemplo, afirma, no filme, que considera o poema como uma carta. “Todo poeta está escrevendo uma carta, um bilhete. Mesmo que seja para si mesmo. Mesmo que seja para o imaginário. Nunca é sem remetente”, diz a poetisa que é também cantora e atriz. A brasileira se destaca no mercado editorial nacional e é uma das responsáveis pela popularização da poesia no país.
“O poder de uma voz não conhece fronteiras e atravessa espaços e tempos. (…) Para ter voz, é preciso lutar por ela e conquistá-la”, escreveu Paulina Chiziane em carta para Raquel Lima, revelada no filme. “A escrita, para mim, funciona como esse espaço de exorcismo dos meus fantasmas”, diz, no documentário, a escritora moçambicana, militante do feminismo, a primeira mulher negra a publicar um romance em Moçambique e a primeira mulher africana a receber o Prêmio Camões (2021).
“Eu acho que a língua é um espaço de poder, um espaço para problematizar. Mas também um espaço para ocupar e para reinventar”, analisa, em “Cartas Para”, Raquel Lima, poeta, investigadora, arte-educadora e ativista portuguesa. Ela é doutoranda do Programa Pós-Colonialismos e Cidadania Global do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e a sua investigação centra-se em Oratura, Escravatura e Movimentos Afro Diaspóricos.
A diretora Vânia Lima define o projeto como um trabalho de criação compartilhada. “Contamos uma história juntas, um filme com elas e não sobre elas. Foi uma experiência que mudou a minha forma de dirigir e de pensar documentário”. Para Vânia, a exibição na FLIP é uma oportunidade do filme encontrar seu público em novos espaços. “Ele sai das telas e vai encontrar o público nos ambientes de literatura e ganha essa vida nas conversas, nos debates sobre literatura. É uma nova forma de pensar em como o cinema encontra seu público”, aposta.
“Cartas Para” reúne profissionais do Brasil, Moçambique e Portugal. A equipe conta ainda com Keyti Souza e Taguay Tayussy na produção executiva, Bruno Ramos na direção de produção e Cláudio Antônio na direção de fotografia. O filme foi realizado com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), via Prodecine/2016 e Suporte Automático, gerido pelo BRDE e Agência Nacional de Cinema (Ancine).
Agenda em Salvador
O filme também será exibido na capital baiana, no dia 28 de julho, às 19h, no espaço Boca de Brasa Cajazeiras, como parte do Circuito Mulheres Negras em Movimento 2026, uma política pública da Prefeitura de Salvador, coordenada pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SECULT), OEI no âmbito do programa Salvador Capital Afro. Antes disso, no domingo (26), Raquel Lima participa também de uma mesa, às 14h, no mirante da Casa das Histórias.

